Bologna · Italia · A receita registrada · No. 03 de 04 · 8 min de leitura

Por que Bolonha não põe alho no ragù

Não há alho no ragù bolonhês. A avó deles não estava fazendo ragù bolonhês. Estava fazendo um molho de carne com alho. São coisas diferentes.

By Anna Mariani · Bologna, Italia · Issue 47, Feature 03

I. O que de fato leva

A receita registrada do ragù bolonhês, depositada na Câmara de Comércio de Bolonha em 1982 e atualizada em 2023, contém: carne bovina, pancetta, cebola, cenoura, salsão, extrato de tomate, vinho branco seco, leite integral, sal e pimenta-do-reino. É tudo.

Sem alho. Sem azeite. Sem ervas secas. Sem louro. Sem vinho tinto. Sem tomate triturado. A gordura de cocção é a gordura que a pancetta solta. O líquido de cocção é vinho branco nas etapas iniciais e leite nas finais. O extrato de tomate é acrescentado em pequena quantidade e cozido com a carne. Sua função é dar profundidade e cor. A base é a carne. A base é sempre a carne.

II. Por que não tem alho

A cozinha bolonhesa é a cozinha da Emilia-Romagna, uma região de caráter culinário bem definido, construída em torno dos produtos de porco, da massa fresca, dos laticínios envelhecidos e de um uso comedido dos aromáticos. O alho, muito presente na cozinha do centro e do sul da Itália, é usado com parcimônia na tradição do norte — está às vezes presente, mas não domina — e no ragù não entra de modo algum.

O ragù foi pensado para acompanhar a massa fresca de ovos — especificamente as tagliatelle, cuja largura foi oficialmente definida como um doze mil duzentos e setenta avos da altura da Torre Asinelli, aproximadamente 8 mm. A suavidade do molho deixa que se prove a própria massa. Um molho dominado por alho atropelaria a massa de ovos. Essa é a arquitetura do prato.

III. O tempo de cozimento

O ragù bolonhês cozinha no mínimo duas horas. A receita registrada especifica duas horas no mínimo. A maioria dos cozinheiros sérios estende isso a três ou quatro horas. O cozimento longo serve para concentrar o sabor e para essa transformação de textura que ocorre quando o tecido conjuntivo da carne se desfaz devagar e se integra ao molho.

Fogo baixo é essencial. Uma fervura branda — pequenas bolhas aparecendo de vez em quando — e não uma fervura cheia. A ebulição endurece as proteínas da carne e evapora líquido depressa demais. Lento e baixo não é preferência: é a forma como o molho se constrói. Sirva com tagliatelle. Não com espaguete.

Recipe — Ragù Bolognese

Contado por Anna Mariani · Bologna, Italia · serve 6

Os dez ingredientes

The method

  1. Doure a pancetta em uma panela pesada em fogo médio até a gordura derreter.
  2. Acrescente os legumes e cozinhe até ficarem macios, cerca de 10 minutos.
  3. Acrescente a carne, aumente um pouco o fogo e cozinhe até não restar nada rosado. Tempere com sal e pimenta.
  4. Acrescente o vinho branco. Cozinhe, mexendo de vez em quando, até evaporar por completo — cerca de 10 minutos.
  5. Acrescente o leite. Cozinhe até evaporar por completo — cerca de 10 minutos.
  6. Acrescente o extrato de tomate. Misture para incorporar. Acrescente 100 ml de caldo ou água.
  7. Reduza ao fogo mais baixo. Cozinhe lentamente de 2 a 4 horas, acrescentando pequenas quantidades de caldo conforme necessário.
  8. Prove e ajuste o tempero no fim. Sirva com tagliatelle frescas.

About the contributor

Anna Mariani

Anna escreve sobre o ragù bolonhês e a cozinha emiliana a partir de Bologna, Italia. A avó a corrigiu aos vinte e quatro. Desde então faz o ragù como se deve e há uma década escreve sobre o porquê.

Editor’s notes — the longer view

Uma nota sobre a receita registrada. A receita foi depositada pela Accademia Italiana della Cucina na Câmara de Comércio de Bolonha em 17 de outubro de 1982 e atualizada em 2023 para refletir a prática contemporânea. O depósito não é juridicamente vinculante, mas é um artefato cultural: uma declaração pública da cidade sobre o que é o prato.

Uma nota sobre o leite. O leite entra no meio do cozimento, depois que o vinho evapora, e reduz junto com a carne. A lactose se caramela levemente. As proteínas envolvem as fibras da carne. A acidez do extrato de tomate cai depois sobre uma base já adoçada. Sem essa etapa, o ragù fica mais áspero.

Uma nota sobre a cor. Um ragù bem feito é alaranjado-marrom, não vermelho. Se o seu molho está vermelho, você pôs tomate demais. O tomate, neste prato, é um elemento de apoio. A base é carne. Um marrom com um fundo quente alaranjado: é esse o tom certo.

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