São Paulo · Brasil · A panela de domingo · No. 01 de 04 · 12 min de leitura
O país, na feijoada
Feijoada não é receita. É um sábado. O cozimento é a preparação para o acontecimento, não o acontecimento. O acontecimento é a mesa, as pessoas em volta dela, a tarde que se estende para além do almoço e entra pelo começo da noite.
By Carla Mendes · São Paulo, Brasil · Issue 47, Feature 01
I. Sexta-feira
A feijoada começa na sexta. O feijão preto vai para a água fria, de molho a noite toda. As carnes curadas e salgadas — carne seca, paio, linguiça, orelha, pé e rabo de porco, se conseguir — vão para a sua própria água fria para dessalgar.
Não dá para pular essa etapa. O feijão que não foi de molho cozinha desigual. As carnes salgadas que não foram dessalgadas deixam a panela inteira salgada demais, de um jeito que não há como consertar depois.
Minha mãe começava o molho na sexta à tarde sem consultar receita nem relógio. Sabia que era a hora porque era sexta à tarde e a feijoada era no domingo. O calendário era a instrução.
II. As carnes
Não existe uma única lista certa de carnes para a feijoada. Cada família tem a sua versão. O que não muda: feijão preto como base. Carne seca como proteína principal. Linguiça para a gordura e a fumaça. Paio para a profundidade. Para além disso, as extremidades do porco. Orelha pela gelatina. Pé pelo mesmo motivo. Rabo por um sabor que os cortes magros não dão.
O que estaria errado é usar só cortes magros. Feijoada feita com lombo magro e carne moída não é feijoada. É sopa de feijão preto. A gelatina das extremidades, a gordura dos embutidos, a profundidade da carne curada — não são detalhes. São o prato.
III. Sábado e domingo
O feijão vai para a panela com água nova. A água do molho, descarta-se. As carnes entram por ordem, começando pela carne seca, que precisa do cozimento mais longo. Depois a orelha e o pé. Os embutidos mais tarde, porque cozinham mais rápido.
Três a quatro horas em fogo bem baixo, escumando de vez em quando. O caldo escuro, encorpado, quase opaco. A feijoada volta ao fogo domingo de manhã, devagar, em chama baixa. Foi feita ontem e está melhor hoje.
A família chega no meio da manhã. Laranja — em rodelas, servida ao lado para cortar a gordura. Farofa — farinha de mandioca torrada na manteiga e às vezes com ovo — para espalhar sobre o feijão. Arroz branco. Couve — em tiras finas e refogada no alho. A tarde fica tomada. A medida de uma feijoada que deu certo não é a receita. É se as pessoas ficaram.
Recipe — Feijoada
Como conta Carla Mendes · São Paulo, Brasil · serve 8 a 10
- 2 dias, de sexta a domingo
- 3–4 horas em fogo baixo
- 5+ cortes de carne
- 8–10 à mesa
Para a panela
- Feijão preto seco, de molho a noite toda — 2 lb
- Carne seca, dessalgada — 1 lb
- Paio ou linguiça defumada — ½ lb
- Linguiça — ½ lb
- Orelha de porco, limpa — 1
- Pé de porco, partido — 1
- Cebola, em cubinhos — 1 grande
- Alho, picado — 8 dentes
- Folhas de louro — 3
- Banha ou óleo neutro — 3 colheres de sopa
The method
- Sexta: feijão na água fria, de molho a noite toda. Carnes salgadas na sua própria água fria para dessalgar, trocando a água uma ou duas vezes.
- Sábado de manhã: refogar a cebola na banha até ficar translúcida. Juntar o alho, cozinhar 2 minutos.
- Juntar o feijão demolhado, a carne seca, a orelha e o pé, as folhas de louro. Cobrir com água fria, 10 cm acima. Levar a fervura, escumar a espuma. Reduzir ao mínimo.
- Depois de 1 hora, juntar o paio. Depois de mais 1 hora, juntar a linguiça. Cozinhar de 3 a 4 horas no total, até o feijão estar bem macio e o caldo escuro e encorpado.
- Descansar de um dia para o outro. Esquentar devagar no domingo de manhã. Servir com arroz branco, farofa, couve refogada, rodelas de laranja. A laranja não é opcional.
About the contributor
Carla Mendes
Carla escreve sobre a cultura alimentar brasileira e a feijoada de São Paulo, Brasil. Cresceu numa casa em que o almoço de domingo levava dois dias para ficar pronto e seis horas para terminar, e considera essa a proporção certa.
Editor’s notes — the longer view
Uma nota sobre o calendário. O argumento deste texto — que a feijoada é um sábado, e não uma receita — não é metáfora. O prato foi historicamente uma comida comunitária de cozimento lento da população afro-brasileira escravizada e liberta, feita com os cortes de porco que as casas-grandes não comiam. O cozimento lento e a mesa partilhada não são enfeite do prato. São o prato.
Uma nota sobre a laranja. A laranja em rodelas é servida ao lado da feijoada em São Paulo e em boa parte do sul do Brasil. A laranja faz duas coisas: o ácido corta a gordura do caldo, e a vitamina C acelera a absorção do ferro do feijão. Provavelmente foram os portugueses que trouxeram a combinação. As cozinhas afro-brasileiras a guardaram porque funciona.
Uma nota sobre a farofa. Farofa é farinha de mandioca torrada, espalhada sobre a feijoada à mesa. Absorve o caldo, dá textura, dá ao prato um elemento estrutural que o feijão macio sozinho não tem. A mandioca e a sua preparação vêm da cozinha pré-colombiana tupi-guarani. A farofa sobre o prato de feijoada é o instante em que três tradições culinárias chegam no mesmo garfo.
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